Transição de Carreira – A vilã que virou mocinha!

Até pouco tempo, transição de carreira era um grande tabu. “Ah vai ter que começar tudo do zero então”, “vai demorar muito pra fazer essa mudança”, “é complexo e longo”, “você não pode jogar anos de estudo e carreira fora né” eram as típicas frases desencorajadoras dirigidas a quem cogitava realizar uma mudança de perspectiva ou simplesmente tentar um novo caminho.

Sim, infelizmente cresci sob essa perspectiva linear. E sim, felizmente vivi para fazer parte de uma grande mudança de mentalidade e de transformação do mercado de trabalho. A começar que nunca compreendi o ditado “cada cabeça uma sentença”, mas na virada para este século ele fazia total sentido. Me refiro à obrigatória decisão sobre a escolha de curso no vestibular que automaticamente nos colocava para sempre uma herança e um caminho pré-moldado a ser seguido durante algumas décadas. Fazer o vestibular era portanto assinar uma sentença. Era possível exercer o direito de não-escolha? Sim, mas isso também nos colocava uma herança de incertezas.

Sempre acreditei que ficar parada no mesmo lugar ou refém de minhas escolhas não iria me satisfazer. Se nem as pedras permanecem em uma mesma forma para sempre e vão rolando morro abaixo para serem lapidadas ao longo do tempo, comigo não poderia ser diferente. Desde pequena sou muito propensa a mudanças. A ideia de conhecer lugares e pessoas diferentes, aprender coisas, escutar ideias diferentes da minha, sempre me atraiu muito. Isso explica tantas mudanças de escola, emprego, cidade, estado, e, claro, sem sombra de dúvidas, pensei muitas vezes em mudar de curso durante a faculdade… Não porque não gostasse de economia (que é a minha formação superior e a “sentença” que escolhi), mas porque queria mais, porque a rotina me desmotivava e eu sempre queria ir em busca de coisas novas.

O mesmo aconteceu com os meus empregos. Quantas vezes meus chefes me pegaram em outros setores da empresa, almoçando com gente de outras áreas que não tinham nada a ver com a minha? Era um jeito de me sentir feliz, de aprender, de recarregar minha bateria para voltar e continuar desempenhando minha função. Se naquela época meus chefes soubessem como esses movimentos me traziam insights novos, se soubessem medir o quão mais produtiva e criativa eu era, talvez fosse até promovida (risos).

Olho para trás e acho engraçado que o que antes era mal visto, agora é condição necessária em muitas empresas. Várias já tem o chamado “job rotation”, programa em que o trainee e/ou colaborador conhece e atua em todos os setores da empresa. Olha que legal isso! Como eu queria ter tido essa oportunidade! Tem horas que até eu me assusto com o número, cada dia mais crescente, na demanda relacionada à transição de carreira ou carreiras não-lineares. E isso não tem nada a ver insatisfação com a função desempenhada, incompatibilidade com o gestor, líder que é pouco inspirador ou a empresa que não tem valores que vão de encontro, etc, mas pura e simplesmente que o mundo mudou. 

A transição não é mais proibida, não é mais tabu, agora ela é bem vista e facilitada por muitos líderes e empresas. Percebemos quanto tempo perdemos e viramos o jogo. Transições de funções e carreiras são cada vez mais comuns, e inclusive são necessárias. Eu as vejo como uma amostra clara do nosso desenvolvimento, amadurecimento e, principalmente, do nosso autoconhecimento e empreendedorismo em si. À medida que vamos aprendendo coisas novas, indo a lugares novos e conhecendo pessoas novas, vamos criando novas conexões mentais, temos novas ideias, novas visões, novas vontades e novas expectativas. Isso é fantástico! Só quem passou por uma transição sabe o quão difícil e delicado é o começo do processo, mas percebe no final o quanto vale a pena o prazer de ter feito a escolha certa e acordar feliz todos os dias, ter a felicidade de exercer seu propósito de vida todos os dias. 

As empresas entenderam o quão importante elas são. As pessoas também. E ninguém mais está sentenciado a nada por toda uma vida. Ou melhor, está pois a única e nova sentença do mundo atual é encontrar o seu propósito e seu lugar no mundo em uma empresa ou espaço que dialogue com tudo isso. Para isso, ao contrário do que acontecia no passado, é mandatório motivar quem sonha com uma transição de carreira a ter coragem, eliminar crenças limitantes e caminhar em direção ao objetivo.  

E a minha dica é: não tenha medo nem vergonha da mudança. Tenha medo de estar no mesmo lugar se isso for sinônimo de estar infeliz, improdutivo(a), estagnado(a) e apenas sobrevivendo. Tão valioso quanto a vida, é o nosso poder de decidir o que é melhor para nós e ir em busca disso. Só depende de você!