Dia da Consciência Negra

Bom, a primeira coisa que você precisa saber sobre a minha história de vida é que ela ainda continua sendo escrita…rs

Vamos começar com o lugar em que eu nasci. Minha família é muito simples: Meu pai é motorista da prefeitura (funcionário público) e a minha mãe dona de casa. Três filhas para criarem, sendo eu a mais nova.

Eu tive tudo que almejei, graças à Deus, nunca faltou nada na minha casa. Meus avós sempre foram muito sábios, e nisso a nossa família se fortaleceu. Algo que nunca faltou foi o respeito, empatia e alegria, porque com tudo fazemos festa, muitas vezes até em enterro de parentes (rs).

Meu pai sempre me contava a história da escravidão por um lado que me fortalecia. Ele dizia: “Menina, os negros são pessoas fortes, batalhadoras e vencedoras, foi através do nosso esforço que temos muitas coisas hoje em dia, porque não temos preguiça de trabalhar”. Mas quando eu assisti as aulas de história na escola, soube o verdadeiro sofrimento dos escravos. Na hora eu não acreditei, não era a mesma história a qual eu fui alfabetizada pela minha família. Foi quando eu cheguei em casa e indaguei meu pai, e ele respondeu: “Keyla, eu contei a história para você se tornar uma mulher forte, e não revoltada ou preconceituosa por ouvir uma perspectiva ruim”.

E por falar em escola, meus pais sempre incentivaram os meus estudos, afinal se está difícil para qualquer um, imagine para nós negros que temos sempre que provar ao contrário. Na escola é a prova de tudo, recebi muito bullying com vários apelidos sempre se referindo a minha cor. Eu respondia na lata, e quando a coisa ficava de um jeito mais grave e humilhante, é claro que eu já convocava a diretoria, mas isso nunca foi um problema para mim.

Com 16 anos de idade, comecei a trabalhar, e foi quando eu realmente conheci e entendi o que é o racismo. Era quando eu via uma criança bonita no shopping e não podia tocar, pois ela é branca e eu uma vendedora negra. Quando estava para entrar no elevador e aquela senhora apertava o botão para fechar as portas. Quando estou vendo uma roupa na loja e perguntam se eu sou vendedora. Ou quando apresento o meu esposo e as pessoas se assustam por ele ser branco. Quando seus colegas dizem “eu não tenho preconceito” e quando passa algum tempo eles soltam: “Jamais namoraria alguém negro, meus pais jamais aceitariam que eu namorasse um negro”.  Trabalhei em uma empresa que a minha coordenadora falava sempre que eu seria a última negra a ser contratada naquela empresa, que ela não se adaptava em trabalhar com negros.

Achando que tudo já tinha terminado, no segundo semestre de 2018 fiquei disponível no mercado de trabalho. E para completar tinha acabado de sair de um quadro de depressão (pelo assédio moral que sofria no último emprego). Nesse momento da minha vida eu tive uma queda capilar e precisei cortar o meu cabelo no corte tipo “Joãozinho. ”

Foi quando eu recebi os olhares estranhos das pessoas. Participei de muitas entrevistas, mas quando comparecia, o profissional que conduzia a entrevista passava a entrevista olhando para meu cabelo, até vir a pergunta: O que aconteceu com o seu cabelo? (Poxa vida, eu vim pelo meu currículo profissional). E isso foi fazendo com o que a minha autoestima piorasse a cada dia.

Por indicação, um dia recebi um convite para participar de uma entrevista na HUB Talent. Já fui achando que seria apenas mais uma. Mas não, eu que saí renovada daquele lugar. Participei de algumas etapas e todas muito descontraídas, eu sentia algo mágico. Estava desacreditada que isso pudesse existir. 

Estava participando do último bate papo com o Head da área, quando ele me perguntou: Você é feliz? Por quê?…Como assim uma empresa que está interessada com a minha felicidade? Logo pensei.

E foi algo maravilhoso, fui aprovada e também recebida de braços abertos por todos que fazem parte dessa equipe. Aqui somos todos muito diferentes, mas ao mesmo tempo somos iguais. Eu tenho a liberdade de mudar o meu cabelo e eles me apoiam. Realmente eu encontrei o meu lugar. Sou muito feliz aqui.

O preconceito existe e o racismo também! O tempo todo, nunca passei um dia em que não percebesse isso nas pessoas ao andar nas ruas.

Por esse e outros motivos, precisamos ser muito mais fortes do que as outras pessoas.

Eu amo quem sou e a família que eu nasci. Tenho orgulho da minha raça e da minha cor, da nossa linda história de superação. Hoje em dia temos muitos negros que representam grandes talentos, algo que no passado era escasso. Para nós, não será apenas um dia que representa o que passamos. Vivemos um dia por vez, lutamos todos os dias, e não desistimos nunca.

Para finalizar esse tema, trago a frase de um homem que sofreu a injustiça na pele, mas no seu coração só existia amor:

“Ninguém nasce odiando o outro pela cor de sua pele, ou por sua origem, ou sua religião. Para odiar as pessoas precisam aprender, e se elas aprendem a odiar, podem ser ensinadas a amar”.

(Nelson Mandela).